O jogo foi tenso, como era de se esperar. Também foi violento, mais do que se poderia imaginar.
Mais uma vez, como foi a marca desta Copa, a arbitragem tomou para si uma posição de destaque na partida. O árbitro inglês Howard Webb, provavelmente com medo de expulsar alguém e influenciar o resultado do jogo, decidiu esconder seu cartão vermelho e administrar o jogo com alguns amarelos e muita conversa.
Estatísticas já indicavam a Holanda como equipe mais faltosa desta Copa, mas durante todo o torneio eles cometeram faltas comuns, parando o jogo sem grande violência. Mas com o salvo-conduto dado pelo árbitro aos 28´do primeiro tempo, quando De Jong deu um “chute de kung fu” no peito de Xabi Alonso, punido com apenas um cartão amarelo, o jogo descambou de vez. Foram 13 cartões amarelos (7 holandeses e 5 espanhóis) e 1 vermelho (para Heitinga, já no 2º tempo da prorrogação) e um recorde: a final de Copa com maior número de cartões na história (e veja bem: eu disse que o juíz segurou os cartões e resolveu muita coisa no papo). Foi mais um recorde para esta geração holandesa: eles já tinham a “honra” de terem participado do jogo de Copa com maior número de cartões na história (quando foram eliminados por Portugal nas oitavas da Copa de 2006, com “apenas” 12 amarelos e 4 vermelhos).
Fora isso, o jogo transcorreu como previsto: duas equipes dedicadas ao toque de bola e à marcação por pressão. Mantiveram o jogo no meio de campo e poucas vezes entraram na área, mas sempre que entravam criavam grandes oportunidades.
A Espanha teve chances claras com Sérgio Ramos, Iniesta, David Villa e mais tarde com Jesus Navas e Fábregas (que entraram no 2º tempo). Do lado holandês, Robben teve a bola do jogo: após lançamento de Sneijder na metade do 2º tempo, Robben saiu sozinho na cara de Casillas e ia jogando um balde de água fria no adversário, como tem sido o costume deste econômico time holandês. Depois de tanta pressão, a Espanha ia perder o jogo que esteve em suas mãos tantas vezes. Mas o capitão espanhol não vacilou. Como é de costume nos grandes times campeões, havia ali um grande goleiro que salvou o dia e manteve o time no jogo.
A Holanda não conseguiu superar sua dependência extrema das jogadas de Sneijder e Robben durante a Copa e, como era previsível, uma hora eles falhariam. Van Persie terminou a Copa sem jogar nada e Kuyt esteve mal na final. A defesa holandesa permaneceu bem, mas de tanto os espanhóis insistirem, conseguiram marcar, depois de 115 minutos de resistência e um jogo memorável do goleiro Stekelenburg.
E assim se foi a invencibilidade holandesa de 25 jogos, que durava desde setembro de 2008, incluindo 100% de vitórias nas eliminatórias e nos 6 primeiros jogos desta Copa. Só perderam um jogo. o único que importava.
A vitória coroa o trabalho extraordinário da seleção espanhola, que iniciou a formação desta equipe no Mundial Sub-20 de 1999, foi reforçado por um excelente trabalho de base do Barcelona (que formou boa parte dos jogadores desta seleção) e culminou em um projeto de renovação da seleção principal que se iniciou logo após a Copa de 2006, com o técnico Luís Aragonés aposentando algumas das estrelas da Fúria e abrindo espaço para estes jogadores. O título da Euro 2008 deu confiança ao trabalho desenvolvido e o experiente técnico Vincente del Bosque, que assumiu o time logo depois do título europeu, fez algumas poucas mudanças e administrou as contusões e ansiedades do time.
No início da Copa parecia que tudo isso iria por água abaixo, com a derrota para a Suíça e a aparência de que algo estava errado no time durante toda a primeira fase. Os jogos sonolentos da Espanha levaram embora seu favoritismo cultivado desde 2008. O ponto de virada foi a difícil vitória sobre o Paraguai e, depois, a superação da “nova” favorita, a Alemanha, na semi-final. Ao fim de uma jornada tão longa, seria um crime ver esta seleção derrotada e tendo de carregar a fama de “amarelona“. Ainda mais com uma geração tão vitoriosa como esta (tanto na seleção como em seus clubes).
David Villa levou a Espanha sozinho até as quartas. Lá o time começou a entrar no ritmo do campeonato. Deslocado para o centro da área na semi-final, Villa parou de se destacar tanto, mas Iniesta começou a aparecer mais. Fábregas recuperou-se de sua contusão e ajudou a equipe em seus últimos passos, enquanto Fernando Torres terminou a Copa ainda apagado.
Com um conjunto desses, quando um grande jogador falha, há outros tantos que podem ocupar seu espaço. Essa foi a diferença entre a Holanda e o time campeão.
Holanda: Stekelenburg, Van der Wiel, Heitinga, Mathijsen e Van Bronckhorst (Braafheid); Van Bommel, De Jong (Van der Vaart) e Sneijder; Kuyt (Elia), Van Persie e Robben. Técnico: Bert van Marwijk.
Espanha: Casillas, Sergio Ramos, Piqué, Puyol e Capdevila; Xabi Alonso (Fabregas), Busquets, Xavi e Iniesta; Villa (Torres) e Pedro (Jesus Navas). Técnico: Vicente del Bosque.
Estádio: Soccer City, em Joanesburgo (AFS).
Data: 11/07/2010.
Árbitro: Howard Webb (ING).
Assistentes: Darren Cann (ING) e Michael Mullarkey (ING).
Público: 84.490.
Gol: Iniesta, aos dez minutos do segundo tempo da prorrogação.
Cartões amarelos: Van Persie, Van Bommel, De Jong, Van Bronckhorst, Heitinga, Robben, Van der Wiel, Mathijsen (Holanda); Puyol, Sergio Ramos, Capdevila, Iniesta, Xavi (Espanha).
Cartão vermelho: Heitinga (Holanda)



















